18
Nov
19

sieg heil, sr crispim

bom dia,

senhor crispim odeia pegar o ônibus.

sempre foi bom pagador. nunca atrasou uma conta….
aqueles velhos que ficam domingo com a bola de fora do short, sem reparar.
molhando as plantas… botando água pros passarinhos.

chegava almoço de domingo, sr crispim tocava uma valsa de manhã pra família.
tinha sido pé de ouro no baile de quinta, não é dona odete?

é.

mas senhor crispim não gosta muito de encostar em gente agora, né dona odete?

é…

sr crispim cresceu no suburbio. vila militar. tudo ali era ordeiro.
sempre agiu como se a pobreza fosse uma escolha. “tem que trabalhar, ué?”

fez faculdade quando não foi aceito no exército.
assumiu o escitório do pai cedo e aprendeu a tocar os negócios.
não ia no carnaval. tinha pé chato.
não dava tempo. e não gostava, também…
mas mais do que tudo, detestava o ônibus! sempre lotado!
gente pobre tem um cheiro forte de quem não tomou banho depois de suar.

hálito de gente que fala perto demais…

mas o jovem crispim deixou aquilo tudo pra trás quando se casou com odete, filha de um amigo negociante da mesma escola de vôo do avô de arthur, o primeiro filho do casal. torcedor do vasco. ainda lava o carro todo domingo na calçada em frente ao portão.
o primeiro carro que ganharam foi pra comemorar o menino.

e assim, nunca mais pegou o coletivo.

o pai dele pagava mal pros empregados. mal pagava.

ele não. os empregados dele são quase família. tem quarto na casa e tudo… ninguém pode reclamar.

aí vem um empregado e quer feriado!
…feriado é dia de almoço da família!

e mesmo assim com a familia em casa, todo domingo – algumas pessoas até já viram, mas ninguém comenta pra não incomodar o velho… “tá só pegando um pouco de sol, o seu crispa, esse vai viver muito!” – sr crispim escapole duas quadras até uma avenida um pouco mais movimentada e faz sinal pra todos os ônibus que passam. não entra em nenhum. diz que se enganou da numeração. o motorista nem liga. já sabe que é coisa do velho.

mas é que ele gosta de uma rotina. não foi militar, mas tem disciplina, até com o que dá prazer. uma vez só na semana. ele faz pelo gesto de parar o ônibus… mania boba de velho.

aquela mão militarmente erguida dando ordem pra um bando de gente pobre dentro de um comboio que vem no fim de semana para servir a ele e sua estrata da sociedade.

é isso aí…

sieg heil, sr crispim.

obrigado pela visita


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