30
Oct
19

medo de mulher

Sempre guardei o que aconteceu na minha infancia só pra mim.

chega. vamos lá.

minha mãe se suicidou quando eu tinha 5 anos. minha irmã viu.
maria lucia já estava tão fora dela mesma, que quando aconteceu fui encontrado andando sozinho,
uns 200 metros do prédio de onde ela se jogou, resgatado por gente que não sabia nem quem eu era.
um menino de rua, talvez…

aquele era nosso primeiro dia no apartamento novo.
dia de comemoração, eu me lembro. pois íamos ter a nossa casa, só nossa.
finalmente.

fui criado por muitas mulheres, lindas, grandes e complexas.

toda pessoa é complexa. a aparência de simplicidade é falta de análise.

antes da minha mãe morrer, nós tinhamos morado no alto da boa vista,
em meio a um monte de gente jovem demais para todas as revoluções que encampavam.

aos 2…3 anos uma moça que cuidava de mim me deitou na cama,
tirou nossa roupa e se deitou sobre mim enquanto minha mãe estava fora com minha irmã.

o mais difícil de um abuso como esse é esquecer o carinho.

dizem que a infancia acaba no momento da sua primeira memória.
e essa não é a minha primeira memória.

naquela época, muito pouco se sabia de psicoanalise na prática.
muitos pais tinham projetos de criar as crianças de formas alternativas…
muitas idéias. muito pouco cartesianismo.
ótimo terreno para pavimentar o caminho até o que se sabe hoje.
mas eu fui cobaia nesse projeto.

e a infancia nunca acabou.

me lembro da vida desde a minha fimose e ainda assim, ando pelo mundo apavorado.
uma criança a 40 anos. e começo a entender que provavelmente eu não vou mudar.

me lembro de andar na floresta com a minha mãe.
Lembro do jeito que o sorriso dela estalava.

morávamos na floresta. eu fazia cocô que nem um filhote de lobo guará na floresta da tijuca e minha mãe sorria. conhecia todas as trilhas que ligavam os morros do rio de Janeiro pelas florestas. antropóloga formada no museu natural da quinta da boavista, que recentemente pegou fogo,
menos uma memória dela.

mas quando meus primos visitaram e eu fiz cocô na floresta, todo mundo saiu correndo de perto.
o menino bizarro crescia.

e meu pai latia para o cachorro no portão da casa na rua do caminho pra creche:
“Daniel de Oliveira Garcia. D.O.G. já notou, cachorrão?”

quando minha mãe e meu pai se separaram, ela nunca mais sorriu com os olhos.
minha mãe sempre foi triste, até quando sua boca sorria pra mim.

era minha melhor amiga.

olhava pra mim com o maior carinho do mundo, mulher gigante,
e seu sorriso triste estalava com uma bolhinha de saliva no canto da boca. pec!

quando minha mãe se matou, meu pai e a mãe da minha mãe (minha avó, mulher linda, fui criado por mulheres e pelos filhos ruidosos de meu avô, os que ficaram depois da morte da minha mãe) iniciaram uma disputa pela nossa alma.

minha avó católica e bonita. culpava meu pai.
meu pai ateu e forte. culpava minha avó.

a guerra dos dois se derramava sobre mim e minha irmã e nos deixou como soldados feridos em campo de batalha para sempre. agonizando.

muitos anos depois meu casamento foi um inferno… agredi minha mulher.
logo eu que fui criado para amar. que li os livros de filosofia dos meus pais. que tirava os talheres da mesa aos 10 anos, enquanto os outros homens iam pra sala satisfeitos do almoço pra assistir o jogo.

procuro quem me fira. só conheço isso.

quero morrer.

mas minha filha nasceu e eu não posso mais, por que amo a pequena.

sou a ultima pedra que chega rolando de longe, de muita dor até uma praia distante.
acredito que a história de pedra quebrada acaba ali.

quero que minha filha seja areia dos fragmentos das pedras que rolaram até a água e das pedras de areia que nasceram do mar. livre dessa caminhada de tornar pedra em lasca. e a areia virar espuma e quem sabe um dia, um neto seja peixe dourado que nem sabe que um dia seu sangue rolou ribanceira abaixo.

é duro deixar de sentir solidão, quando se luta essa luta sozinho.

mas ainda quero morrer. é duro deixar de querer morrer.

agressividade. solidão. egoísmo. medo. fuga.

cometi tantos erros em nome da herança que eu não quero mais carregar e que levo comigo pra sempre,
tão velho e cansado…

muitos anos depois, quando eu finalmente tive coragem de falar sobre a empregada que deitou comigo, meu pai disse que eu devia ter ficado feliz… por que todos os homens desejavam ela.

meu pai sempre foi um general e um grande mestre. sábio.
filho de militar. amante do amor.
às vezes me afastava um pouco quando eu me encostava.
sabia muito pouco de masculinidade tóxica.
eu sei muito pouco também e estou estudando pra ver se evito falar coisas como essa que ele me disse.

tenho medo de mulher.
muito desejo o tempo todo.
observo o mundo através do sexo.

procuro minha mãe desesperadamente em quem eu desejo.

e ódio de homens. medo de desejá-los também. pois desejo tudo.
e assim deve ser. o desejo pela vida, a punção pelos corpos.

já que os homens quando são femininos me dão carinho em forma de abraço,
já que a aproximação de outro homem não guarda rejeição pela minha estranheza e neurose profunda.
não tem abandono que doa no homem.

mas as mulheres percebem meu desespero e se afastam com toda razão.

me sinto júpiter tentando raptar europa e provar que isso é amor.

um amigo, nessa mesma época que conversei com meu pai
me disse que o padrão da pedofilia é a repetição.

tive horror de criança na adolescencia. horror de mim com crianças.

observava as familias de amigos, pra saber o que fazer caso fosse pai
tanto medo que tinha de ficar sozinho com os filhos dos outros.

até ter minha filha.

manuela salva minha vida todos os dias. o presente de deus a um ateu.

não existe pedofilia e insesto. mas o medo está sempre lá.

por que a vida não é curta como esse texto.

e nos intervalos de uma tragédia e outra
O adulto te dá tapa na cara rindo… era piada e eu que não entendia….
outro te levanta pelo pescoço, depois de cheirar cocaína.
outro adulto dá chute em voce quando voce peida deitado no chão
policial te manda abrir a bunda “pra ver se tem bagulho” quando voce tá andando na montanha
nunca te tratam como ser humano completo
nunca te tratam de adulto
tiveram muitos amigos
mas voce anda sempre sozinho
vai mal na escola
se pinta de azul para ver se aparece
é visto, ridículo pintado de azul, logo pela menina mais linda
pega a namorada do melhor amigo
ignora o amor das pessoas que o cercam
se afunda em trabalho e não realiza nada
despreza o amor de quem simplesmente te ama
deixa os amigos e volta só quando precisa
nem se lembra da irmã.
largado na estrada, chovendo, a mãozinha da filha cansada
esperando alguém que não vem…
rouba, quebra, briga e berra sozinho. com ódio.
nunca esquecendo de nada
e nem confiando em ninguém.
e pensa que tudo seria diferente se voce não tivesse nascido.

querendo morrer todo dia.

sem entender nada.

já fazem 40 anos.


2 Responses to “medo de mulher”


  1. October 30, 2019 at 6:43 pm

    Força cara.
    A vida infelizmente não vem com manual e a gente passa o tempo perdido procurando instrução.
    Olhar tanto pra dentro é mais dificil ainda e você parece estar nessa há um tempo. É um caminho árduo.
    Depois dos espinhos sempre tem uma clareira e depois novos espinhos. Mas que bom que você parece que tem um horizonte na bússula para te manter caminhando. Quem sabe com tempo as clareiras ficam maiores e você sai do bosque.

    Boa sorte.
    Forte abraço.

  2. October 30, 2019 at 6:49 pm

    Espero que sim.
    eu tenho uma história no futuro que usa esse negócio da floresta como metáfora.
    nela o personagem passa a vida inteira com medo da floresta e um dia se embrenha nela e não volta nunca mais.

    mas o meu negócio é o mar.
    :]

    Abraço Renan


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